segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Sobre sabor e canção

O amor, quando é daqueles intensos, deixa sabor metálico na boca.
Não tô fazendo metáfora. É real.
Também não sou nenhuma cientista que possa comprovar tal fato com embasamento e tudo mais.
Mas dou minha palavra.

Não sei qual é a explicação biológica e também não é em qualquer amorzinho que o fenômeno ocorre.
Sei que tem que ser forte. Mas também sutil. Rápido e lento. Profundo e raso. E quando se chega à exaustão, tá lá. Sabor metálico na boca. Prova do amor.
Rolou, foi bom e o gosto é ótimo, apesar de parecer que não é. E é metálico, mas é doce.

É hard core. É tango. É canção pra dois.
E depois que o amado vai embora e fica só o sorriso bobo, vira Jorge Ben cantarolando no calçadão num fim de tarde do Rio de Janeiro.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Saudade da Amélia

Estou com saudade da Amélia. Porque eu nunca vi fazer tanta exigência pra ser considerada uma "mulher de verdade".

Tem que ser uma super profissional: pós-graduada, bilíngue, antenada, motivada e que jamais se cansa. Tem que lutar com o emprego pra conseguir ter tempo e forças pra ir pra academia malhar e ser gostosa. Tem que cuidar de casa perfeitamente. Tem que que levar o carro pra lavar, pra arrumar. Tem que fazer a unha, o cabelo, se depilar... porque não foi de desleixo que o Mário Lago falou quando disse que a Amélia não tinha a menor vaidade. E tem que comer pouco, fazer regime...

Aí fico pensando em uma "mulher de verdade" que eu conheça. E só consigo lembrar da Dona Justina, minha avó, que já foi Miss em Santo André e agora é a 1ª Princesa. Ela não fez faculdade, era costureira. Agora tá aposentada, faz lasanha de "bróco" e tem problema no "figo". Conhece todos os remédios caseiros pra quando reclamo de uma dor. Faz as blusinhas mais singelas e lindas do mundo pra mim. Borda meu nome em todas as minhas toalhas. Dá aula como voluntária. Se inscreve em sites (com a ajuda da minha tia) e conta o trabalho voluntário dela, pra ganhar amostras grátis de tudo que se pode imaginar e doa pras alunas. Cada dia aprende um artesanato novo, um prato novo. Faz hidroginástica 3 vezes por semana. Vive com o dinheiro da aposentadoria e de duas casinhas de aluguel. Mesmo assim dá R$ 100 pra cada neto no aniversário, e “ai” de quem recusar.

É, tô longe de ser uma mulher de verdade. Mas não é da 1ª que tô falando.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Sem posições

Como enlouquecer seu homem em 100 posições. Eles contam as melhores transas de suas vidas – E elas dão as dicas de como fizeram pra levá-los à loucura. Dez dicas para conquistar os amigos dele.

Juro, eu tenho vergonha por quem escreve essas matérias das revistas femininas. Minha cara chega a queimar quando leio os títulos! E mais, acho que várias coisas são inventadas. Afinal, quem dá nome, sobrenome, idade e profissão pra contar que ex-namorada fez o melhor oral? E pior, que ex-namorada dá nome, sobrenome, idade e profissão e explica passo a passo o que a tornou “digna” de tal título. É mentira, só pode!

Fato é que mulher, daquelas que não têm lá grandes coisas na cabeça (a grande maioria), passa a vida tentando adivinhar o que os homens pensam (como se fosse possível) e como fazer pra arrebatá-los de vez. É um tal de alisa cabelo, bota silicone, sobe no salto, escolhe a roupa mais piriguete da loja, faz milhares de agachamentos na academia e claro, lê a revista pra saber as 100 posições mais enlouquecedoras. Tanto esforço, que esquece quem se é sem um micro vestido, uma máscara preta nos olhos e um copo de vodka na mão. Tanto trabalho quando, na verdade, o gostoso mesmo da vida é o simples.

E prepare-se, porque é brega e clichê o que vou dizer (mas se você tá lendo até agora, respire fundo e vai!): se relacionar com alguém é justamente se despir de máscaras e abandonar aquilo que nos torna diferente do que realmente somos.

É acordar sem maquiagem e precisando correr pra escovar os dentes antes de dar aquele beijo delicioso de bom-dia-com-ressaca. É ouvir no pé do ouvido aquele sussurro que você tá LINDA, vestida apenas com a camiseta que ele estava na noite anterior. É falar bobagem e dar risada sem medo de parecer tonta (mesmo sendo bastante). Ou falar sério sobre o que pra você é realmente sério na vida. É passar tanto tempo juntos, sem fazer nada, suficiente pra reparar e rir dos defeitinhos um do outro. E se apaixonar por esses defeitos também. E é fazer amor devagarzinho, sem pressa, encaixadinho em uma posição só, sem malabarismos. E depois, deitar no ombro e sentir o cheiro da pele enquanto os batimentos cardíacos voltam ao normal.

Vou me lembrar pra sempre de uma frase de Adélia Prado: “Erótica é a alma”. E no fim das contas é assim que me sinto mais sedutora, quando eu sou eu mesma. Espontânea, natural e com todos meus sabores e dissabores. E os dele misturados aos meus.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Pílulas de você

Ele reclama que eu o julgo. “Eu não julgo, eu analiso” - explico. Mas o veredicto é tão certeiro, que a análise pesa tal qual um julgamento. Ou mais.

Não era o objetivo. Só não consigo evitar.

“Não tem problema” – o tranquilizo – “O que eu acho, no fim das contas, não importa.” Ele faz sinal de que concorda. Mas pra ele importa sim. E eu fico feliz que importe.

Suspira e me diz que gosta de mim justamente porque eu incomodo, discordo, cutuco, sou do contra. “Acho que você conhece mais a mim do que eu mesmo.”

Acontece que eu gosto das personalidades fortes. Mesmo que elas não estejam dentro do meu padrão do que é correto. Aliás, que chatice seria se estivessem.

Por isso fico em dúvida se gosto dele porque ele me irrita ou se me irrito porque gosto dele. Sensação esquisita. Nem eu sei. Mas ele sabe menos ainda sobre mim.

terça-feira, 29 de março de 2011

O que "pega" você?



As pessoas vivem dizendo, postando ou comentando por aí o que “pega eu” e o que “não me pega” para expressar o que gostam ou o que topam e o que não rola. Mas será que elas realmente pensam nisso ou só falam da boca pra fora, como fazem com quase tudo? Eu pensei.

Sabe o que pega eu? Espontaneidade pega eu. Originalidade pega eu. Personalidade pega eu.

Pega eu aproveitar a companhia dos meus amigos, da minha família e outras boas companhias também. Pega eu saber dar o valor correto a cada coisa, a cada pessoa. Pega eu valorizar os momentos.

Pega eu principalmente quem não se diverte com a maldade, que não planeja puxar o tapete, que não sente prazer em sacanear os outros. Pega eu quem está ocupado com a própria vida e não com a alheia.

Pega que quem quer ser alguém na vida, mas alguém de bem, que conquiste as coisas por méritos próprios. Pega eu quem tem objetivos e que trace metas para realizá-los. Pega eu quem trabalha, quem ganha a própria grana, quem não é hipócrita de dizer que dinheiro não é importante. Mas pega muito mais eu quem não dá valor excessivo ao que é material e nem classifique as pessoas pelo que elas têm.

Pega eu gente feliz, gente de bem, gente sorridente, que curte viver. Pega eu quem sabe brincar e sabe aceitar brincadeira. Pega eu quem não faz jogos, quem tem apenas uma cara e não duas. Pega eu quem não faz chacota dos sentimentos alheios. Pega eu quem não ri dos outros, quem não faz piada pelas costas.

Pega também eu quem aceita os próprios limites e sabe admitir as falhas, os defeitos. Pega eu quem erra, mas pede desculpas, mesmo que não goste de pedir. Pega eu quem é humilde e quem valorize a sinceridade.

Pega eu aventura. Pega eu diversão. Pega eu rir até doer a barriga. Pega eu dançar até o chão. Pega eu brindar à vida. Mas também pega eu a vida saudável. Pega eu comer direito, pega eu dormir bem, pega eu me exercitar.

Pega eu passar o domingo na cama, de pijamas, fingindo que vê tevê, enquanto na verdade cochila. Pega eu ler, escrever, rabiscar. Pega eu brincar e apertar meu cachorro. Pega eu correr pela casa de meias, atrás do meu sobrinho, que se esconde atrás do meu pai e se dobra de tanto rir.

Pega eu jogar papo fora. Pega eu curtir uma preguicinha a dois. Pega eu fazer carinho, receber carinho. Pega eu beijar bem devagar. Pega eu fazer amor com pressa, mas sem pressa.

Pega eu ser feliz à minha maneira. Pega eu seguir meus instintos e desejos. Pega eu fazer o que EU tiver vontade. Pega eu fazer tudo isso, respeitando os limites dos outros.

Pega eu aceitar e aproveitar o que a vida me proporciona naquele momento. Mas pega eu desejar mais, muito mais, sonhar e ir atrás, mas sem passar por cima dos meus valores e das outras pessoas. Pega ter orgulho do que sou, de onde estou e do que faço. Pega eu me amar antes. Pega eu me respeitar sempre.

E você, o que te pega?

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Ano Novo, denovo!



E mais um ano chega ao fim. Parece que foi ontem mesmo que vi os fogos da praia e abracei meus amigos em celebração a 2010. Agora já é quase 2011. O tempo é frenético, passa cada vez mais rápido. E isso é assustador.

Por isso decidi fazer um balanço mental e relembrar o que vivi, o que senti, o que aprendi. E pensando assim, puxa, foi mesmo muita coisa!

Muita gente nova e especial surgiu na minha vida para iluminar ainda mais meus dias. Algumas tão especiais que me deixam sem palavras para descrevê-las (eu, justamente eu, que falo pelos cotovelos!). Outras da antiga ressurgiram, e apesar das condições em que isso ocorreu não ser nada feliz, fico extremamente grata em saber que fiz amigas eternas, que sabem que sempre poderão contar comigo e voltam, e é como se nunca tivessem ido! Sem contar aqueles que estão sempre ao meu lado já há tempos, no dia-a-dia, incansáveis. Verdadeiros irmãos de coração que conquistei e que me tornam mais feliz.

Esse ano troquei de emprego e minha vida mudou muito. Tive muito medo, confesso, mas as coisas vão se ajeitando e fica o aprendizado gigantesco a cada dia. A conquista é uma sensação boa!

Também fiz a viagem da minha vida. E mesmo que outras perfeitas venham, jamais vou esquecer desta, que ficará bem guardada no meu coração e mente. Foram tantas as escalas: Santa Catarina, Paris, Amsterdam, Lisboa, Rio de Janeiro, Sergipe. Mas quero mais, muito mais!

Em 2010 eu sorri muito muito muito. Gargalhei até chorar. Chorei de tristeza também. Algumas vezes de soluçar. Mas graças a Deus eu sorri infinitamente mais. Dancei, pulei, virei cambalhota. Tomei sol, tomei chuva. Corri, lutei, suei, fiz dieta e furei a dieta. Dormi bastante, não dormi nada. Abracei, dei colo e recebi carinho. Senti saudades, matei saudades. Defini situações, botei ponto final. Abri novos parágrafos. Beijei, fui beijada, curti, me decepcionei. Lembrei que o importante é ter amigos. E sorri outra vez. Tudo recomeça.

Disse aos meus pais, irmãos e sobrinho que o quanto os amo, tantas vezes quanto eu pude. E quero dizer ainda mais. Eles são minha vida, e quero que se lembrem sempre disso.

Mudei algumas coisas e aprendi a me aceitar em outras. Descobri que sei encarar as coisas com bom humor, por mais que às vezes eu seja uma grossinha da estrela. Fazer piada e rir de si mesma pode ser um santo remédio.

Tentei ser a melhor amiga, irmã, filha, tia, cunhada, profissional, cidadã e mulher que eu pude. Sei que errei tantas vezes, mas sempre quis acertar. E vou continuar me esforçando.

Não sou de fazer promessas, mas de traçar metas, e tenho várias para 2011. Também não acredito em muita coisa, como que tudo muda com uma simples alteração no calendário. Quem faz o novo somos nós, a cada dia. Mas sou uma mulher de fé. Fé em Deus. Fé na proteção que Ele mantém sobre mim, mesmo que eu faça, refaça e mude constantemente meu caminho. Ando sempre com fé.

E é por isso que, se tenho direito a um desejo de Ano Novo quero pedir que todos aqueles que eu amo estejam sempre ao meu lado. Que amem, sejam amados, que tenham paz, pratiquem a paz, e sejam felizes! Amém!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Atores da felicidade

Infeliz é aquele que é incapaz de cuidar da própria vida. Sua frustração é tão grande e o vazio tão profundo, que ele veste a máscara de um personagem e passa a tentar convencer os outros de que ele sim tem a fórmula mágica da felicidade.

É fácil identificar esse tipo de pessoa. Normalmente elas falam alto, gesticulam muito e fazem de tudo para chamar atenção para si. São demasiadamente repetitivas porque fazem questão de ressaltar sempre como o seu estilo de vida é o “melhor”. E se esforçam ao máximo para atrair seguidores. São pessoas extremamente solitárias, e que por isso se cercam de muita gente, para não sentir a dor no meio da mutidão. É puro disfarce.

Tenho dó de quem acredita e segue esse tipo de gente. Essas pessoas esquecem que o conceito de felicidade é intrinsico. Cada um tem sua forma de ser. Eu tenho outra.

No meu modo, sou uma pessoa feliz que tem momentos de tristeza, e não o contrário. Quando estou triste, aceito minha condição momentânea e não me repreendo por isso. Só não permito lamentar. Ser feliz não significa que eu tenha que sorrir o tempo todo.

Felicidade é interna, não vem dos outros e nem de nada. Um bom emprego, um carro, uma viagem, os amigos, um amor, complementam a felicidade. Mas temos que ser felizes por nós mesmos. Não se iluda, nem seja inocente: ninguém te faz feliz.

Por isso, viva a sua maneira. Não se deixe influenciar por pessoas aparentemente contagiantes, mas que são rasas e vazias. As pessoas influenciáveis são piorres dos que as infelizes.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Nostalgia


Oi pessoal, estamos ausentes, eu sei. Esta semana faz dois meses que não escrevo. Agora entrei aqui e comecei a ler os textos e comentários. Me deu saudade de quando o blog ficava movimentado o dia todo.

Mas anda me faltando inspiração e tempo. Na verdade, mais inspiração do que tempo, porque ultimamente ando viciada no Twitter. Isso mesmo. Eu, que falei que odiava as malditas redes sociais, estou ligado o dia inteiro no Twitter.

Tenho projetos novos. Logo os coloco em prática. Quem sabe não tão logo...rs Mas vcs serão informados, com certeza.

Ah! Quarta-feira que vem, dia 7, faz 1 ano que lançamos o blog. Apesar da falta de atualizações ultimamente, ficamos felizes com o sucesso dele.

Beijos

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Inferno astral



Dizem que 30 dias antes do nosso aniversário começa nosso inferno astral, aquela fase em que tudo de errado acontece, numa espécie de expurgação dos problemas. Prefiro não acreditar nisso, pensar que se trata de uma fase de transformação – ok, simbólica, mas uma transformação – em que coisas melhores virão.

Tempo de reflexão. Estou nesta fase. Pensando no que já fiz em 30 anos e no que ainda tenho que fazer. Às vezes, por mais cansada que eu me sinta, tenho a sensação de que não consegui fazer tudo o que preciso ou ao menos planejei fazer. Isso me tortura.

Não falo de curtir a vida adoidado, fazer viagens sensacionais, como aquelas do filme “Cem coisas de fazer antes de morrer” (acho que é este o nome), não. Falo de coisas simples que não consegui concluir, de atitudes que não consigo mudar e que acabam me machucando e a outras pessoas pelo caminho.

Como na maioria das vezes vivo no piloto automático, meio que no “deixa a vida me levar”, porque acredito que quando se faz muitos planos e se tem muitas expectativas o tombo é maior, sofro demais quando vejo tudo o que negligenciei ou decisões que adiei quase que para sempre.

Não acredito em inferno astral, mas geralmente fico extremamente sensível perto da data do meu aniversário. Pensa numa TPM. Agora eleva ao cubo. É mais ou menos assim. Assisto à novela e choro. Vejo o extrato do banco e choro. Alguém fala mais grosso comigo e choro. Minha unha quebra e choro. Na semana passada li um livro e achei que fosse morrer de chorar.

Não pense que estou chorando porque estou chegando aos 30. Isso não me assusta. O que me inferniza é a minha imperfeição (olha lá, já estou chorando) aos 30 anos.

Aí são nestas horas penso em mudanças, tanto pelo bem da minha saúde mental como a de quem me cerca. Mas tenho tanta coisa para mudar e para arrumar, que preciso de uma lista. Lá vai. A partir de agora:

Vou me dedicar mais a minha família e amigos;

Vou fazer exercícios regularmente;

Vou comer menos porcarias;

Vou beber menos álcool e mais água;

Vou pensar 15 vezes antes de dizer qualquer coisa em uma briga;

Vou me organizar para aproveitar melhor meu tempo no trabalho;

Vou ler mais;

Vou terminar minha pós-graduação;

Vou comprar apenas o que eu preciso e não o que eu quero;

Vou respeitar a opinião das pessoas sem querer impor a minha;

Vou deixar de ser acomodada com situações que me perturbam;

Vou demonstrar mais meus sentimentos positivos;

Vou limpar meu guarda-roupa com freqüência;

Vou quitar meu carro;

Vou checar meu extrato bancário semanalmente;

Vou emagrecer os cinco quilos que planejo há “uns par” de anos;

Vou me desfazer de mágoas;

Vou magoar menos;

Vou deixar de me estressar com problemas que não dependem de mim para ser resolvidos.

É isso. Com certeza faltaram muitas coisas, mas devo levar os próximos 30 anos para cumprir metade desta lista. Se em cada inferno astral eu conseguir eliminar um item já estou no lucro, né não?

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Janela de Dentro

Cheia de dúvidas rodeando minha cabeça como moscas, e tirando o meu sossego, a minha paz interior, eu suspirei pesado e fechei meus olhos, apertando-os com força. Então, como em um sonho, me vi em Paris novamente. Onde de fato nada importava, nem ninguém. Tudo era apenas contemplação. Era Paris.

Ergui a cabeça e deixei o vento gelado, que entrava pela janela aberta, cortar meu rosto. Minha franja se rebatia e tapava minha visão, então a afastei com as mãos. Foi quando olhei e percebi que tudo tinha aparência de fotografia antiga. Os prédios eram quase todos iguais até onde minha vista alcançava. Todos em tons pastéis, com janelas brancas e lindas sacadas de ferro pintado de preto, na cor dos telhados. Algumas destas sacadas eram cheias de vasos com galhos secos ou plantinhas ainda verdes, que faziam um contraste com o local. Saia fumaça de quase todas as chaminés, afinal, estava mesmo muito frio e todo mundo queria se aquecer. Pensei que os aquecedores deviam estar trabalhando a mil.

A minha janela era mesmo linda. Mas a vista que eu tinha dela era mais sensacional ainda. Ela dava para outras janelinhas de vidro, no telhado do prédio da frente. Mas elas estavam sempre fechadas por cortinas, de modo que eu não conseguia ver o que se passava lá dentro. Mas, se eu tivesse que imaginar, imaginaria a Wendy brincando com o Peter Pan de voar pelo quarto. Tudo bem, tudo bem, eu sei que a história se passa em Londres. Mas é isso o que eu gostava de imaginar.

Ao longo da rua, à minha esquerda, havia diversas árvores sem folha, todas com aparência de estarem secas. Mas não eram feias, pelo contrário, ainda assim pareciam suntuosas. E havia também motos por toda parte, todas cobertas de branco.

Olhando para baixo eu via escadaria que dava até a entrada do metrô. Pessoas entrando e saindo apressadas, algumas com guarda-chuvas e várias delas apagando o cigarro, já que é proibido fumar lá dentro. Havia sal jogado em formato de ziguezague no chão, para evitar que alguém escorregasse. Tirei a luva direita e a estendi a mão. A neve estava caindo bem fininha, mas a temperatura que vinha com ela já era suficiente para congelar meus dedos desacostumados com o frio, em poucos segundos.

Recoloquei a luva e me fechei mais ainda no casaco, me apertando. Não dava mesmo para ficar com a janela aberta por muito tempo. Mas ali, bem ali, é onde eu mais me sentia em Paris. Onde eu esquecia quem eu era e a vida que eu tinha no Brasil. Não que ela fosse ruim, mas simplesmente porque ali ela não importava.

Dei uma última olhada para fora e tive que fazer força para fechar a janela, que resistia ao vento. Quando consegui, tudo ficou calmo e mais quente. Pisquei para aproveitar o calor do quarto e me concentrar em me recuperar do frio. Mas, quando abri os olhos já não estava mais em Paris. Tinha voltado ao meu carro, que estava estacionado em frente à casa dele. Porém, incrivelmente eu já não me sentia mais tão confusa. Ainda não tinha certeza do que ia fazer, mas ao menos meu coração não estava mais batendo pequeno, apertado. Eu havia recuperado o equilíbrio.